Por que gastronomia? E o que você precisa compreender antes de se aventurar na cozinha.

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Certo dia fui questionada sobre o que leva tantos jovens a escolher uma profissão tão cheia de glamour e ao mesmo tempo repleta de contrastes?

Atualmente, a valorização da gastronomia e do cozinheiro é muito diferente de alguns anos atrás. Relembrando os acontecimentos do passado, chefs como a famosa Julia Child enfrentavam o preconceito e a discriminação, já que a profissão era machista e conservadora.

Grandes Chefs eram considerados o baixo escalão da sociedade. Alguns casos custaram um alto preço, como o caso do Chef Vatel François, que rompeu a própria vida, tamanha a pressão ao organizar um banquete oferecido à majestade.

Algumas barreiras foram quebradas, preconceitos dissolvidos e hoje o profissional chega a ter status de uma verdadeira celebridade. Isso se deve à valorização da gastronomia e também do papel do Chef.

A maioria dos canais de televisão tem programas de destaque na área da gastronomia, os aplicativos de vídeos tem entre as receitas os ítens mais procurados. Todos podem se sentir verdadeiros cozinheiros ao enfrentar o fogão e a fantástica alquimia das panelas, basta seguir as instruções. Será?

A verdade é que alguns resolvem levar a sério esta atividade e escolhem a gastronomia como profissão, tema central deste artigo.

A gastronomia como profissão precisa, acima de todas as coisas, ser escolhida de dentro para fora, ou seja, é preciso escutar verdadeiramente se seu coração é apaixonado pela cozinha. Mas se este não for o seu caso, se você estiver vislumbrando a parte externa da atual glamourização da profissão, meu conselho é que você tenha muita cautela e tente diferenciar a realidade do mercado da fantasia da profissão.

Gostar de cozinhar é uma coisa bem diferente de escolher viver a cozinha. Não existe glamour algum em cozinhar, o glamour é restrito aos programas de televisão, reality shows e Chefs conceituados com uma carreira consolidada.

Aquele que enfrenta a rotina exaustiva de uma cozinha compreende em poucos minutos que é uma profissão que exige garra, persistência, dedicação, esforço e pés no chão. Por falar em pés no chão, são eles e as pernas que mais percebem a realidade, afinal chegar a 12 horas ou muito mais em pé é algo extremamente comum em uma cozinha. Nenhuma delas possui cadeiras para você descascar quilos de batata ou para cozinhar. É impossível combinar descanso com a realidade de uma rotina operacional.

Uma cozinha pode ser um dos ambientes mais quentes e insanos que você frequentará, mas quando tudo segue uma sinfonia perfeita e a qualidade dita o tom maior, o tempo passa voando e  a  recompensa é maravilhosa. Saber que o cozinheiro é responsável pelo sorriso,  satisfação e encantamento de um cliente é algo capaz de renovar as forças em segundos e revigorar aquela paixão de cozinhar.

Digo e repito inúmeras vezes que para se manter no mercado e para seguir os passos desta profissão é preciso focar na humildade e lembrar que mesmo grandes Chefs aprendem todos os dias e com todos os colaboradores. Um grande exemplo é o do Chef Laurent Suaudeau, que cita em seu livro Cartas a um Jovem Chef, que uma grave falha em um prato de salada devolvida por um cliente foi identificada pelo lavador de pratos e passou despercebido pelo restante da cozinha.

Neste ambiente o conhecimento é resultado de muito estudo, é consequência de uma prática exaustiva, a competência só chega com anos de dedicação e entrega.

Esta será uma profissão de alta competitividade, afinal, como dito anteriormente, todos podem se sentir verdadeiros cozinheiros pelo simples fato de cozinharem bem. Deve-se ter conhecimento que haverá uma concorrência digna de respeito daqueles que nasceram com um talento inimaginável e com uma sensibilidade ímpar, independente de diplomas e titulações. Um ótimo exemplo é a estrelada Chef Ana Ross, eslovena, autoditada, perfeccionista e nada menos que a melhor Chef mulher do mundo em 2017.

Para finalizar e compartilhar um pouco sobre os motivos que me levaram a escolher a gastronomia como profissão, conto um pouquinho da minha história:

Desde criança, quando provava vários alimentos sob estímulo de meu pai, adorava observar os encantos das cozinhas. Aventurei-me em algumas receitas, umas falharam, outras foram verdadeiros desastres… Mas as que davam certo, as que ficavam saborosas e na consistência adequada, faziam com que eu percebesse que este era o caminho que me trazia felicidade.

Foi buscando a minha felicidade e também das pessoas e empresas ao meu redor que foquei no serviço de consultoria para restaurantes, buscando soluções através do conhecimento, do olhar crítico e detalhista e da padronização de rotinas e serviços.

Então, esta vertente da gastronomia foi a qual escolhi viver. Para saber o segredo, descobrir se você estará no caminho certo, pense como a aluna Jessica Laine Salvador, que disse em uma das aulas de gastronomia que: “A escolha certa é aquela que aquece o coração.”

Um jeito sucinto de lembrar que em qualquer profissão que se escolhe na vida a parte mais importante para traçar um caminho é compreender a verdade que carregamos dentro de nós.

Marina de Carvalho Mendes Mafra